O lado B de ser cientista no Brasil

Por: Alice de Souza – Diario de Pernambuco

Por: Anamaria Nascimento

Pressionados por prazos e resultados, alunos de pós-graduação sofrem de ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, irritabilidade e isolamento

O suícidio de um doutorando nos laboratórios da Universidade de São Paulo (USP), em agosto de 2017, descortinou um tema que costuma ser jogado para debaixo do tapete na academia: a saúde mental na pós-graduação. Ser cientista é, desde a faculdade, o sonho de muitos estudantes que veem a carreira como sinônimo de realização. Mas uma outra face desta vida é ocultada por trás de artigos, congressos, dissertações e teses. Noites mal dormidas, distúrbios alimentares, irritabilidade e isolamento social. O acúmulo de pressões leva a um adoecimento.

Dentre os poucos estudos realizados no Brasil, um levantamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou que 58,6% dos alunos de pós-graduação stricto sensu (programas abertos mediante edital) sofriam de estresse. Os índices mais elevados foram registrados nos centros de Ciências da Matemática e da Natureza (82%) e tecnológico (61%) e no Fórum de Ciência e Cultura (60%) da instituição onde o aluno se matou.

A presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), Tamara Maiz, vê no problema o reflexo de uma cultura acadêmica burocrática, competitiva e de poucas oportunidades. O problema, de proporção mundial, está presente em Pernambuco.

A doutoranda Débora (nome fictício), 44 anos, aluna de uma instituição federal que ela pediu para não ser especificada, enfrentou pressão antes mesmo de ingressar no mestrado. “Muitos colocam como algo fora do alcance, então eu pensava sobre as minhas capacidades de passar na seleção”, conta. Ao entrar, começou a acumular tensão e, próximo à defesa, isso repercutiu na saúde. “Valeu a pena porque fiz o que gostava, mas a um preço alto. Não tinha lazer, vida pessoal. Meus cabelos caíam muito, meu rosto estourou todo”, comenta ela, que chegou a ouvir e professores que o mundo da pesquisa é solitário e, caso a pessoa não aceite essa solidão, não deve estar ali.

“O pós-graduando recebe uma série de pressões, como prazos curtos para qualificação e defesa, dificuldade de relacionamento com orientador, pressão por publicar em revistas de alta relevância científica. Além disso, há assédio e discriminação. É preciso combater, romper o silêncio, mudar essa realidade”, afirma Tamara Maiz. Um dos casos que chegou à associação foi o de uma estudante de mestrado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), de 27 anos, que teve um surto psicótico e foi encontrada caminhando nua na rua. “O processo de conhecimento não precisa ser dolorido, como muitas vezes é”, opina.

Tristeza intensa e incapacidade

Com episódios de taquicardia e mãos trêmulas, engenheiro eletricista encontrou na academia dificuldades que nem o mercado lhe trouxe. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
Com episódios de taquicardia e mãos trêmulas, engenheiro eletricista encontrou na academia dificuldades que nem o mercado lhe trouxe. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.

As noites de Euller Gonçalves eram um ciclo sem fim. Deitado no travesseiro, ele sempre voltava, em seus sonhos, para a graduação. Tentava avançar as etapas do curso, mas de lá só conseguia sair ao despertar, no meio da madrugada, com taquicardia e as mãos trêmulas. Perto de terminar o mestrado, o engenheiro de 31 anos passou a viver um eterno pesadelo. Ao longo dos anos da pós-graduação, os estudantes enfrentam fatores adversos que culminam no adoecimento mental.

O estresse elevado dos mestrandos e doutorandos é considerado a ponta de um iceberg formado por patologias como a depressão e que pode chegar ao suicídio. A dinâmica da pós-graduação impõe uma rotina de restrições. Metade dos studantes passa a ter alterações no sono, 37% aumentam sua irritabilidade e 23% sentem mudanças no apetite, evidenciou um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), de 2013.

A psiquiatra associada da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e docente da Universidade do Oeste Paulista Gilmara Rister alerta que podem ser indícios de ansiedade patológica. “Existe uma situação de enfrentamento normal, uma ansiedade produtiva. Porém, se há repercussões físicas e psíquicas, é uma doença. Por repercussão física entendemos mudanças no sono, apetite, taquicardia, sudorese, tremor. Já por sintomas psíquicos, angústia, inconformismo, insegurança, medo e frustração”, alerta.

Engenheiro eletricista, com experiência de trabalho no exterior, Euller decidiu ingressar na pós-graduação para se qualificar. Encontrou uma angústia que nem mesmo viveu no mercado formal. “Passei a ter aversão ao celular, pois pensava já nas cobranças. A pós deveria ser libertadora, mas não me senti assim”, descreve. Ele chegou ao ponto de não querer sair de casa. Sentia o mesmo que 41% dos estudantes dos programas stricto sensu: diminuição da motivação.

Há quatro meses, procurou um psiquiatra, um psicólogo e começou a tomar remédios para controle de ansiedade. Foi diagnosticado com início de depressão. “Só depois de três meses de medicação e ajuda profissional consegui voltar ao ritmo de trabalho”, lembra o profissional. Mais de 15 dias de tristeza intensa, sensação de incapacidade e humor deprimido já são motivos para buscar ajuda, explica Gilmara Rister. Caso contrário, são amplas as chances de desenvolver quadros depressivos graves.

Pelo menos um em cada três doutorandos corre esse risco ou já apresenta sinais da doença, de acordo com dois estudos. Um realizado na Bélgica e publicado em 2017 na revista Research Policy. E outro produzido na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Síndrome
A presidente da Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG), Tamara Naiz, relata também ser comum o desenvolvimento de síndrome do impostor, quando o acadêmico não se considera digno dos méritos, e também síndrome de burnout, caracterizada pelo esgotamento mental. Tanto ela como Gilmara defendem que a solução, além de falar abertamente na academia sobre o assunto, é criar núcleos de de prevenção e atendimento psicológico para os alunos. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) não possui uma iniciativa específica ligada à saúde mental de pesquisadores.

A Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) informou que no Departamento de Qualidade de Vida há psicólogos em todas as unidades acadêmicas disponíveis para atendimentos emergenciais e tratamentos. “Há ações voltadas para a saúde mental, que foram intensificadas principalmente após o aumento nos casos de depressão e suicídio entre jovens”, informou a instituição por nota. Nem a Universidade Federal de Pernambuco nem a Universidade de Pernambuco, hoje, têm esse serviço de apoio. A Unicap  não respondeu.

Escassez de verbas agrava o quadro

Parte da angústia acumulada pelos pós-graduandos é não conseguir dar continuidade à pesquisa pela precariedade da infraestrutura oferecida dentro das instituições brasileiras de ensino superior. Enquanto a exigência por resultados de excelência aumenta, diminuem as verbas repassadas pelos órgãos de fomento, as bolsas e a abertura de editais. Em manifesto publicado em dezembro do ano passado, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e outras cinco entidades questionaram os cortes sofridos no orçamento brasileiro para as ciências e tecnologias em 2018.

Segundo o órgão, o valor aprovado para o orçamento geral do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), neste ano, é 19% menor do que o aprovado para o ano passado. Já o orçamento destinado a custeio e investimento chega a ser 25% menor. Na ponta, pesquisadores se sentem pressionados a realizar verdadeiros milagres e sofrem também com o estresse. “Há cerca de três anos, estamos acompanhando essa situação. Praticamente os financiamentos estão extintos, os equipamentos obsoletos e as bolsas reduzidas”, lamenta a psiquiatra, pesquisadora da Universidade de Pernambuco (UPE) e presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, Kátia Petribú.

Na unidade de pesquisa clínica que coordenada, ela e os alunos custeam muitas vezes com dinheiro próprio desde a compra de material básico de higiene até os 2 mil dólares necessários para publicar artigos em revistas com fator de impacto alto. “Isso aumenta muito o estresse do pesquisador, compromete a qualidade da pesquisa. É um esforço inglório, um ciclo vicioso”, diz. Com a escassez de verbas, a rotina da maioria dos pós-graduando é dividida entre a pesquisa e um emprego formal, o que reduz também o tempo de dedicação. Procurado pela reportagem, o MCTIC não respondeu aos questionamentos sobre o tema.

Entrevista
Tamara Naiz // presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG)

 (ANPG/Divulgação)

Como é a realidade do desenvolvimento de transtornos mentais entre estudantes de pós-graduação stricto sensu no Brasil?
É algo comum. Uma realidade não só brasileira, mas que no país têm crescido. Aqui, além de toda a pressão que provoca o adoecimento, temos a falta de direitos trabalhistas, previdenciários e estudantis entre os pós-graduandos. As pessoas colocam a saúde em risco durante viagens de campo, dentro dos laboratórios, e não têm nenhum direito. Se elas se acidentam realizando pesquisa, não têm onde recorrer. Atrasamos cerca de 10 anos a entrada no mercado formal e não temos direito de afastamento por motivo de saúde nem esse tempo contado na aposentadoria. A bolsa não tem reajuste desde 2013. Muitas vezes, você não sabe o que está fazendo. É um profissional formado, tem obrigações, mas nenhum direito.

Por que esse tema é tão pouco debatido dentro da própria academia?
A academia começa a olhar o assunto agora, mas as pessoas ainda pensam: “sempre foi assim. Eu passei por isso, agora meu orientando passará”. É como se fosse uma cultura arraigada e corporativista. As pessoas que são alvo de denúncias de assédio são professores e são julgados pelos pares. É difícil ser imparcial. Sempre quem faz a denúncia de sigilo, aguentar calado, pois fica marcado e não consegue entrar em um concurso, não consegue entrar no doutorado. É gerada uma perseguição acadêmica, as pessoas são mal vistas, retaliadas. Isso enfraquece as denúncias, não há segurança de que o processo é levado a sério. Por isso defendemos ouvidorias e que seja garantido que as comissões de julgamento tenham representantes de diversas categorias e não apenas professores.

Existe alguma perspectiva ou projeto para que o assunto seja incluído em estratégias e políticas públicas no país?
Existem conversas, mas que não estão resolvendo muito. Desde 2015, estamos tentando montar com a Capes e o Ministério da Educação um grupo de trabalho para debater a situação socioeconômica do pós-graduando. Mas isso não sai do papel. Existem hoje alguns estudos que abordam assédio e adoecimento na academia, mas infelizmente poucos de dimensão quantitativa. Acredito que o componente de mudanças políticas atrapalhou, mas faltou vontade também. Iríamos nos reunir uma vez por mês, levantar dados, estudos, para subsidiar a compreensão do tema. É meio absurdo desde 2015 não termos nenhuma resposta.

Machismo acadêmico torna pesquisadoras mais vulneráveis

Quase um terço das pesquisadoras ouvidas em um levantamento de 2015 disse acreditar que foram desqualificadas por serem mulheres. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
Quase um terço das pesquisadoras ouvidas em um levantamento de 2015 disse acreditar que foram desqualificadas por serem mulheres. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.


Em agosto de 2017, durante reunião com estudiosos de várias partes do mundo, a vice-diretora de um dos maiores centros de pesquisa de Pernambuco, que prefere não se identificar, explicava um estudo que queria desenvolver sobre a transmissão de determinada doença. Diante de sua explanação, a plateia riu. Foi necessário que um cientista homem, mais velho, interviesse. Ele defendeu a proposta e pediu que ela fosse ouvida. Quem havia menosprezado a fala passou a apoiar.

Levantamento feito em novembro de 2015 pelo Instituto Avon e Data Popular mostrou que 67% das mulheres já relataram que assédio no ambiente acadêmico. Além disso, 28% disseram acreditar que foram desqualificadas por serem mulheres. “Estudo muito desde cedo. Entrei na graduação aos 16 anos e concluí o doutorado aos 27. Com o tempo, percebi que os homens chegavam aos postos de liderança mais rapidamente”, disse a cientista. Apesar de representarem 50% da produção científica brasileira, as mulheres têm dificuldades para alcançar postos mais avançados. “Estou em um cargo de direção e tenho 43 anos, mas sou uma exceção. Os demais diretores são homens ou mulheres mais velhas, todas com idade na casa dos 50 anos”, pontua.

Concilar vida acadêmica e maternidade é o principal desafio das cientistas, dizem as pesquisadoras ouvidas pelo Diario. “Cheguei a pesar 43 kg durante o doutorado porque estava amamentando e não me alimentava direito. Dar conta de casa, bebê e pesquisa é um desafio.” A pesquisadora observa hoje que, entre os estudantes de mestrado e doutorado orientados por ela, as alunas desistem mais facilmente da carreira. “Já cheguei com uma pesquisadora na Inglaterra e ela recebeu uma bolsa de doutorado sem precisar de seleção. Ela deixou de ir porque ia se casar”, conta. “Percebo que as mulheres ainda precisam fazer essas escolhas. Além disso, noto que quando alunas faltam porque o filho está doente, e não os homens.”

A presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Tamara Maiz, enfatiza que, no Brasil, as mulheres realizam metade das pesquisas – um dos maiores índices do mundo. No entanto, o ambiente acadêmico é mais hostil para as pesquisadoras do que para os pesquisadores. “Uma questão fundamental nesse sentido é pensar como esse cenário adverso pode atrapalhar o rendimento acadêmico delas a ponto de desencadear transtornos psicológicos e comprometer suas carreiras”, pontua. Em dezembro de 2017, foi sancionada a Lei Federal 13.536/2017, que dá direito a afastamento por maternidade a bolsistas de pesquisa. Agora, é possível solicitar suspensão das atividades acadêmicas por até 120 dias recebendo bolsa.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), apesar de as bolsas serem concedidas equitativamente entre homens e mulheres, elas são minoria nos mais altos níveis da hierarquia científica. De um total de 112 cientistas, apenas 27 mulheres chegaram à categoria de Pesquisador Sênior, isto é, a modalidade de pesquisadores que “se destacam entre seus pares como líder e paradigma na sua área de atuação”. 

Discriminada por causa da idade

Conciliar a vida em família com os estudos é um desafio, diz Helena (nome fictício). Foto: Shilton Araújo/Esp.DP.
Conciliar a vida em família com os estudos é um desafio, diz Helena (nome fictício). Foto: Shilton Araújo/Esp.DP.

“Você tem certeza de que vai conseguir fazer o mestrado? Isso é para gente jovem.” Com essa pergunta, a administradora Helena (nome fictício), 53 anos, foi recebida na entrevista da seleção do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFPE. Percebeu que as pressões de ingressar em um mestrado já haviam começado. Até então, sabia que sairia menos, encontraria os amigos com menor frequência, mas não tinha consciência de que a idade poderia ser considerada um empecilho para estudar. “Tendo terminado o mestrado, sei que o que ela (a entrevistadora) disse não pode ser levado em conta. Não existe idade para estudar. Ainda sonho em fazer o doutorado”, afirma.

Helena acreditava que tinha a maturidade como vantagem sobre os mais jovens. “Meus filhos já estavam crescidos e eu tinha um emprego estável que me dava condições de estudar. Conciliar estudo e trabalho não é fácil, mas estar em uma empresa que me incentivava foi fundamental”, afirma. Ela conversava com os filhos, na época com 15 e 17 anos, sobre a importância do que estava fazendo. Nem sempre eles entendiam, mas foi possível concluir o curso com o apoio deles. “Meu marido e filhos nem sempre compreendiam minha ausência e cobravam que eu estivesse mais com eles. Em determinada altura do campeonato, decidi mudar o lugar de estudo do quarto, onde eu ficava isolada, para a sala, onde todos ficavam reunidos. Certo dia, minha filha disse que não aguentava mais olhar para as minhas costas, pois eu estava lá, mas sempre de costas e sem interagir. Porém, de maneira geral, me apoiaram muito”, conta.

Além de considerar que é preciso “estar bem da cabeça” para encarar uma pós-graduação, chegou à conclusão de que o projeto de vida do pós-graduando precisa ser um projeto de toda a família. “O apoio de quem está com você, seja filhos, parceiros, pai, mãe, é fundamental, pois todos acabam sendo afetados pela sua nova rotina. Lembro que eu deitava com o meu marido, conversávamos e eu esperava ele dormir para levantar de mansinho e ir estudar. Conciliar a vida em família com os estudos é, sem dúvida, um desafio, mas se você tem vontade, planos e metas, consegue êxito sem maiores prejuízos. Acho que a pessoa se estressa mais se pensar que gostaria de estar fazendo outra coisa. Se você for estudar pensando que queria estar na praia, em uma festa ou em outro lugar, a ansiedade aumenta. Procurei esvaziar minha mente para focar no livros”, diz.

Fonte: Diário de Pernambuco

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