Inexperiência dificulta vida de recém-formados

Por: Maria Rita Sales Régis

Falta de oportunidades nas empresas para esse público afeta auto-estima e prejudica até a saúde

“É doído você se dedicar tanto para se capacitar e não conseguir ingressar no mercado de trabalho”. A frase é da técnica de segurança do trabalho desempregada Aline Lopes, de 20 anos.

Há um ano buscando emprego, a jovem se emocionou ao falar da dificuldade de conseguir uma vaga no mercado. “Começa a mexer com a auto-estima e o psicológico da gente”, afirmou com a voz embargada, enquanto aguardava em uma fila no Parque Moscoso, em Vitória, para cadastrar seu currículo em mais uma agência de seleção de empregados.

Sem esperança de ser contratada na área em que se especializou, Aline conta que já procurou vagas em outros setores com salários menores, tentando fugir do desemprego.

“Cheguei a ser chamada para a entrevista. O selecionador disse que, por ele, a vaga era minha, mas como o meu currículo era muito capacitado ele não poderia correr o risco de me contratar e eu sair meses depois quando surgisse uma vaga melhor”, lamenta.

Se para quem tem capacitação já está difícil arranjar emprego, ainda que em posições “menores” do que as que se especializou, para quem tem apenas o ensino médio a situação é ainda pior.

Mesmo com ensino médio completo, Júlia Borges diz aceitar a "vaga que aparecer", seja uma oportunidade com carteira assinada ou  estágio
Mesmo com ensino médio completo, Júlia Borges diz aceitar a “vaga que aparecer”, seja uma oportunidade com carteira assinada ou estágio
Foto: Marcelo Prest

Terminando o 3º ano ainda em 2016, o estudante Rubens Ratzke, 18, revela que não tem encontrado nem vagas de estágio. Ele reclama que parte dos empregadores ainda carrega o estigma de que “jovem não gosta de trabalhar” e não dá oportunidade para quem está começando.

“Fala-se muito que os jovens não têm interesse, que não querem nada com nada, mas não dão oportunidades. Nós temos interesse, sim. Queremos mostrar nosso valor”, desabafa.

Além da falta de experiência, Rubens aponta outra dificuldade no mercado: o conflito de gerações. Para muitos empregadores interessa mais quem se encaixa no estilo de vida dos mais velhos.

“Isso é algo que eu já até deixei de lado. Tiro o brinco e visto roupas mais formais sem problema algum. Mas muita gente se incomoda com o fato de ter que deixar sua essência para poder trabalhar”, explica.

Para Aline Lopes é necessário se pensar em medidas mais estruturantes para acabar com a falta de vagas para jovens. Ela sugere a criação de algum tipo de legislação em que se garantisse um percentual mínimo de “aprendizes” dentro das empresas.

Técnico em edificações desempregado, Pedro do Nascimento revela que a concorrência de mais experientes que estão sem emprego é grande
Técnico em edificações desempregado, Pedro do Nascimento revela que a concorrência de mais experientes que estão sem emprego é grande
Foto: Marcelo Prest

“É questão de inclusão mesmo. Assim como existem vagas para deficientes, acho que deveria ter um percentual de jovens em cada empresa, para que todos possam mostrar o seu trabalho. Da forma como está já não dá mais”, opina.

Segundo a coordenadora de Recrutamento e Seleção da Rhopen, Ludmila Ribeiro, as empresas passaram a ser mais exigentes e seletivas, com o objetivo de formar um quadro de funcionários cada vez mais alinhado a sua cultura organizacional. “São valorizados aqueles colaboradores empreendedores, multifuncionais e com uma visão geral da empresa. Outra característica importante é a liderança, independentemente de ser chefe ou não. É importante ter seguidores, chamar para si o cumprimento de metas e motivar a equipe”, disse.

Análise

Jovem deve ter humildade

Os jovens tem a energia, a beleza, a ambição que os empresários privilegiam na composição dos seus times. Mas então por que os jovens perdem continuamente espaço no mercado de trabalho? O jovem poderia conhecer outros lugares, dominar um segundo idioma, ampliar sua visão mesmo que pelas redes sociais, pelo Google. No entanto, ele encontra-se desprovido, em alguns casos, de disposição, coragem, perseverança, curiosidade e, sobretudo de vontade para aprender, algo próximo a humildade do admitir “não saber”, além de ser frágil para lidar com confrontos e frustrações. Os “coroas”, portanto, preenchem então essas lacunas por terem sabedoria, gostarem de servir e desejarem desaprender tudo que um dia foi considerado importante, para aprender esse novo mundo que se afigura. Os jovens por sua vez, deitam no berço esplêndido da tecnologia e conforto, declinando da responsabilidade e protagonismo por sua vez.

Fonte: Gazeta Online

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