Desemprego faz recém-formados optarem por carreiras ‘alternativas’

Por: Naiara Arpini

Com diploma nas mãos, eles não encontraram vaga na área de formação.
Especialistas explicam que faltam oportunidades nesse momento de crise.

Eles são jovens e têm ensino superior completo, estão com o diploma nas mãos, e cheios de gás para entrar no mercado de trabalho. Alguns tem fluência em línguas estrangeiras e especializações. Mesmo assim, não conseguiram emprego na área de formação e aí, quando a responsabilidade bateu na porta, precisaram recorrer a outros cargos ou outras carreiras para ganhar dinheiro.

São pessoas como o Breno, que tem diploma em arquivologia, mas vendeu chup-chups e trabalhou como frentista em um posto de combustível para pagar as contas. Ou como Geovana, que é jornalista por formação, mas ganha dinheiro como maquiadora. Ou então como a Luana, que é bacharel em direito, mas decidiu vender brownies. E tem também a Emilly, que é formada em história, mas dá aulas de inglês.

Expectativa: conquistar um cargo na área de arquivologia
Realidade: emprego como vendedor de chup-chups e frentista

“Eu acreditava que após a saída da universidade, com um diploma em mãos, as portas do mercado de trabalho se abririam”, comenta Breno Silveira, de 20 anos. Ele faz parte de uma geração de diplomados despejada num mercado de trabalho que não parece estar sendo acolhedor para a maioria.

Formado em arquivologia em fevereiro deste ano, Breno distribuiu currículos mesmo antes de se formar. Foram pelo menos quatro meses de busca por uma função na área de formação. Não tendo recebido nenhuma resposta positiva, ele decidiu vender chup-chups para pagar as contas.

“Procurei algo de imediato que pudesse me demandar pouco tempo de trabalho e dinheiro relativamente rápido”, explica. Algumas semanas depois, Breno recebeu uma proposta para trabalhar como frentista em um posto de combustíveis e aceitou. Entretanto, a rotina puxada, que o atrapalhava a estudar para concursos, o fez desistir do emprego.

“Eu queria estar lá pra ter algum trabalho, mas ainda assim estudar para concursos e tentar empregos na minha área. Era algo temporário. Eu ficava muito cansado, perdi meu tempo para estudar, e então resolvi sair”, diz.

Agora, os planos são se dedicar aos estudos e se diferenciar da concorrência para conquistar uma vaga na área de arquivologia. “Decidi apertar um pouco as coisas e só estudar. Quero passar em um concurso, se possível, na área pela qual eu sou apaixonado”, sonha.

Expectativa: conquistar um cargo na área de jornalismo
Realidade: investir na área de maquiagem para ganhar dinheiro

Formada em agosto de 2015 na Universidade Federal do Espírito Santox (Ufes), a jornalista Geovana Chrystêllo viu todo o esforço ir por água abaixo ao não conseguir ser contratada.

“Mandei currículo para todas as vagas que surgiram, mas não tive retorno de nenhuma. E aí vem o questionamento: ‘será que eu estou errada? será que tem algum problema comigo?’”, desabafou.

Ela conta que o sentimento de frustração é o que prevalece diante de tantos ‘nãos’ ainda no início da carreira.

“Eu fico totalmente frustrada, porque eu achei que passando em uma Federal eu teria um diferencial. Estagiei em um bom lugar, me dediquei, tive uma boa experiência, e aí chega aqui fora e é como se eu não tivesse valor nenhum no mercado”, diz.

A solução para não ficar parada foi investir em algo de que sempre gostou: a maquiagem. Bastou o empurrãozinho de uma amiga para ela apostar na ideia como uma alternativa para ganhar dinheiro.

“Sempre gostei de assistir tutoriais e estava mandando currículo e não conseguia nada na área, então uma amiga falou para fazer maquiagem para fora. No começo eu fiquei indecisa, porque não tinha confiança, mas no desespero eu comecei e agora estou fazendo cursos.  Não salvou a minha vida, mas está sendo uma salvação nesse instante”, explica.

Expectativa: conquistar um cargo na área de direito
Realidade: transformar um hobby em uma profissão

Bacharel em direito, Luana Moraes, de 24 anos, também viu num hobby a oportunidade de conciliar todas as obrigações. Alguns meses após o fim da faculdade, ela descobriu que esperava o primeiro filho, Enzo, hoje com um ano de idade.

Se a crise econômica parecia deixar a tão sonhada vaga de emprego distante da realidade, a chegada do bebê complicou ainda mais a situação.

Brownie da Lu tem servido de renda para Luana, formada em Direito (Foto: Reprodução/ Facebook)Brownie da Lu tem servido de renda para Luana,
formada em Direito (Foto: Reprodução/ Facebook)

Sem muitas opções, ela chegou a trabalhar na Secretaria Estadual de Educação (Sedu), mas em uma função que não tinha relação com a área de direito.

Depois do nascimento do filho, ela chegou a tentar abrir uma sociedade com uma ex-colega de faculdade, que também estava desempregada, mas a ideia não foi à frente.

“Tentamos abrir um escritório só nós duas, mas ficou apertado financeiramente, vimos que não ia ter jeito”, disse.

Descartada a ideia de montar o próprio negócio na área jurídica, ela precisou avaliar outras possibilidades. “Eu tinha duas opções: ou eu entrava no mercado ganhando um salário inferior, depois de cinco anos de estudo, ou eu optava por ter meu tempo em casa, trabalhando em algo que me permitisse estar perto do meu filho. Aí veio a ideia de fazer o brownie”, contou.

Mesmo recente, o negócio tem gerado bons frutos. “Por enquanto está ótimo. Estou recebendo encomendas toda semana, as pessoas me procuram para aniversários, casamentos. Estou feliz!”, garantiu.

Expectativa: conquistar um cargo de professora de história em uma escola
Realidade: dar aulas de inglês e usar a formação em história para complementar a renda

No caso de Emilly Ucceli, de 25 anos, o diploma em licenciatura em história, da Universidade Federal de Viçosa, tem servido apenas para complementar a renda. Depois de voltar para a cidade natal, Guarapari, e enfrentar uma série de experiências profissionais, ela ganha a vida dando aulas, mas de inglês.

“Voltei para Guarapari, mas não tinha experiência na área. Então comecei a trabalhar como assessora na Câmara de Vereadores. Depois, monitorei uma dependente química em uma clínica de reabilitação”, contou.

Em 2014, ela conseguiu vaga como professora de história em uma escola particular. Mas a instituição decidiu reduzir o número de turmas e ela acabou sendo demitida por corte de verbas. Foi aí que ela viu a oportunidade de usar o conhecimento na língua inglesa para não ficar parada.

“A professora de inglês dessa mesma escola entrou de licença maternidade. Como eu já estava saindo, me candidatei para a vaga e acabei permanecendo”, disse.

A minha renda vem do inglês. Não vejo perspectiva para voltar para minha área”
Emilly Ucceli, formada em história e dá aulas de inglês

Mas a oportunidade não durou muito tempo e ela precisou deixar o emprego na escola. Foi aí que ela decidiu continuar dando aulas particulares, de forma independente. Depois, passou a ensinar inglês em um curso particular de língua estrangeira.

“Hoje a minha renda principal vem das aulas de inglês, as aulas particulares de história são um complemento, e eu não vejo muita perspectiva para voltar para a área de história”

Com o diploma de história praticamente engavetado, ela lamenta não ter encontrado, ainda, uma oportunidade melhor de exercer a profissão com a qual sempre sonhou em trabalhar.

“Não sou extremamente frustrada porque eu estou atuando como professora, mas tem dias que eu acordo pensando que queria tanto estar dentro de uma sala de aula dando aula de história…  A gente tem gás, quer trabalhar de manhã, à tarde e à noite, se sujeita a ganhar um salário menor, mas não consegue colocar em pratica o nosso sonho”, lamentou.

O que dizem especialistas
De acordo com psicólogas responsáveis pelo recrutamento de profissionais em empresas do estado, a situação econômica vivida pelo país atualmente não é favorável para a entrada no mercado de trabalho. Pelo contrário, com o número de trabalhadores desempregados, a concorrência pelas vagas tem se tornado ainda maior.

“É uma questão de empregabilidade mesmo, está faltando oportunidade. Na verdade, sempre faltou, mas por conta da crise elas diminuíram ainda mais”, disse a psicóloga e coach Sarah Rosado.

Yasmin Cheibub, que também é psicóloga e coach, concorda. “Essa questão não é nova, é recorrente. Desde que os tempos são tempos a gente tem isso de a pessoa se formar, ter qualificação e não conseguir atuar na área. E tem aquele problema: para o primeiro emprego, a pessoa precisa ter experiência, mas para ter experiência, precisa de uma oportunidade”, explicou.

E elas têm razão. De acordo com os dados da Pnad Contínua, divulgados no dia 19 de maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego subiu em todas as grandes regiões do país no primeiro trimestre deste ano em relação mesmo período de 2015.  No Sudeste, o índice subiu de 8,0% para 11,4%.

Por nível de instrução, a pesquisa mostrou no 1º trimestre de 2016 que mais da metade dos ocupados no Brasil tinha concluído pelo menos o ensino médio (55,0%), 29,3% não tinham concluído o ensino fundamental e 17,9% tinham concluído o nível superior.

Pelos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, no ano passado foram fechados 115 mil postos para pessoas com ensino superior completo e incompleto.

Para a coordenadora de recrutamento e seleção Ludmila Ribeiro, essas condições fazem com que os profissionais tenham que se adequar à oferta de oportunidades.

“As pessoas estão aceitando propostas com perfil inferior à formação por conta do numero de ofertas de vaga. Houve sim uma redução. O mercado não está contratando tanto, e o profissional acaba aceitando para se manter no mercado”, explicou.

“Conheço casos de jovens de 25 anos que já estão sustentando a casa porque os pais estão desempregados. E aí, algumas dessas pessoas se sujeitam a trabalhar com qualquer coisa por uma questão de necessidade”, acrescenta Sarah.

Elas ainda destacaram que muitos jovens recém-formados são impacientes e almejam um cargo alto logo no início da carreira, sem valorizar a ideia de crescer dentro da empresa começando por um cargo mais baixo.

“Essa turma de agora é digital. Eles nasceram em uma época em que tudo é muito mais rápido, tudo na hora. É uma geração que não aprendeu a ser frustrada, que quer tudo pra ontem. Talvez seja uma questão de não querer começar do começo, das funções mais simples, dos menores salários”, opinou Yasmin.

Para Yasmin, a mudança de rumo profissional não deve ser levada como uma situação totalmente negativa, mas sim como uma forma de revelar talentos que talvez nunca seriam descobertos.

“É uma experiência. Grandes empresários começaram assim e montaram impérios. Enquanto isso não acontece, vão fazer brownie, vender pipoca, vão à luta”, concluiu.

Fonte: G1

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