Graduação: como entrar em uma universidade nos EUA

Planejamento, provas, documentos: entenda os primeiros passos para entrar em uma faculdade norte-americana

Harvard, Yale, Stanford, MIT… Se você sonha em ter no seu diploma qualquer um desses grandes nomes (ou de outra universidade nos Estados Unidos), talvez já tenha ouvido falar do rigoroso processo seletivo para ser aceito em uma instituição de ensino norte-americana. Apesar de ser bem diferente da seleção feita pelas instituições aqui no Brasil, está longe de ser impossível de passar. Época NEGÓCIOS conversou com especialistas em graduação no exterior para ajudar quem quer sair do ensino médio com vaga garantida lá fora. Veja o passo a passo:

Por que é diferente

Enquanto as universidades brasileiras usam a nota do vestibular para determinar quem entra e quem fica de fora, as instituições dos Estados Unidos consideram uma série de outros fatores, como atividades extracurriculares. Você ainda terá de fazer uma prova (ou mais de uma, em alguns casos, como explicaremos em breve), mas a universidade americana olhará também para o seu histórico acadêmico e, sobretudo, para atividades extracurriculares que você desempenhou em sua vida. O que isso inclui? Trabalho voluntário, desenvolvimento de projetos, iniciativas de empreendedorismo e até mesmo prática de esportes. As faculdades querem avaliar o “aluno como um todo” — por isso o processo de candidatura é tão extenso.

“É a chamada avaliação holística”, afirma a especialista em graduação no exterior Carolina Lyrio, responsável pelo programa Prep Scholars da Fundação Estudar. “As universidades querem saber como aquele aluno melhora o mundo em que vive, a sua comunidade. Quem vai para os Estados Unidos não pensa só em estudar, vai para viver. Então eles querem ter uma ideia de quem você vai ser naquele campus, quando não estiver em aula.”

Justamente por causa dessa complexidade, não há fórmula mágica para aprovação, explica a especialista. “Temos alunos que tiveram sucesso e eram envolvidos com olimpíadas escolares, outros que davam aula em colégios do bairro ou lançaram aplicativos e também aqueles que empreendem. Sempre frisamos que os candidatos devem tentar ser a melhor versão possível deles mesmos”. De acordo com Carolina, o aluno não precisa se envolver nas mesmas atividades. “As faculdades querem pessoas que amam o que fazem e que não têm medo de desafios, que gostam de levar tudo que fazem para um patamar mais alto”, diz.

Planejamento

Como as universidades dão tamanha importância para atividades extras e exigem um volume considerável de material prévio na candidatura (provas, cartas etc), não dá para decidir tudo de última hora. O ideal é começar o ensino médio sabendo que você quer estudar fora. “Academicamente, o brasileiro é bem forte. Mas o que ele não costuma ter são as atividades extras”, diz Annie Kim Podlubny, fundadora do DUX Institute, consultoria para candidatos brasileiros que almejam admissão em instituições de ensino no exterior. “Começamos o planejamento cedo, para aprofundar o candidato nessas atividades, dando a ele tempo de fazê-las durante as férias, por exemplo.” Annie recomenda a preparação já a partir do nono ano do ensino fundamental.

Mas e se já passou desse ponto, não há mais esperança? Pode ficar tranquilo. “Quanto mais tempo você tiver com notas boas e envolvimento em atividades, melhor”, afirma Carolina Lyrio. “Mas já vi alunos no segundo ano do ensino médio descobrirem que querem estudar fora, se dedicarem e terem sucesso.”

Durante esse período, além de se esforçar para conseguir boas notas e realizar atividades extras, você terá de investir nos estudos de inglês, imprescindível para sua aprovação, e na pequisa das universidades para as quais quer se candidatar. “Para aumentar a chance de aprovação, a principal questão é o aluno se candidatar a universidades que sejam apropriadas ao seu perfil”, diz Marta Bidoli, coordenadora nacional do EducationUSA, entidade ligada ao Bureau of Educational and Cultural Affairs do Departamento de Estado Americano. Segundo ela, esse é o “o primeiro passo”. O aluno precisa saber se aquela instituição que está na sua lista é mais formal ou mais despojada e, principalmente, se ela se encaixa no orçamento da família e oferece a bolsa que ele busca. É possível conseguir informações sobre bolsas de estudo no site da faculdade e saber mais sobre o perfil da instituição conversando com ex-alunos (uma dica: procurar grupos de ex-alunos nas redes sociais).

Candidatura

O processo de candidatura recebe o nome de “application” — por isso é tão comum ouvir de um aluno que está “aplicando” para determinada universidade. O Common App é a plataforma mais usada para fazer applications e enviá-las para múltiplas faculdades. Mais de 600 instituições utilizam o serviço. Mas há instituições que contam com plataformas próprias em seus sites, então vale conferir se alguma de suas universidades escolhidas está na lista. Há etapas que dependerão da escola em que você estuda, como as cartas de recomendação. Se a escola não sabe por onde começar, o EducationUSA oferece material de orientação gratuitamente. “Para muitas escolas, é o primeiro aluno que está se candidatando, então não conhecem o procedimento”, afirma Marta Bidoli.

Veja o que será exigido na hora de aplicar:

Histórico acadêmico
São os chamados “transcripts”: suas notas durante o ensino médio. Algumas escolas, acostumadas a mandar alunos para o exterior, fornecem o boletim em inglês para quem quer fazer o application. Se esse não for o seu caso, você terá de encontrar um tradutor. A maioria das grandes universidades americanas exige uma tradução oficial, feita por um profissional certificado. O Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores) tem uma tabela com valores de referência para você se basear.

Embora não sejam analisadas de forma isolada, boas notas fazem diferença. “Para as universidades mais disputadas, recomendamos um GPA [média das notas] entre 9 e 10”, diz Bruno Contrera, gestor de educação responsável por cursos e universidades no exterior no STB Intercâmbio.

Prova
Para a maioria das universidades, você terá de fazer pelo menos uma prova: SAT (também chamado de SAT I) ou ACT. O SAT é um dos testes de admissão mais comuns dos Estados Unidos e avalia habilidades de raciocínio em matemática, interpretação de texto e escrita em inglês. Já o ACT é composto por quatro seções: inglês, matemática, interpretação de texto e raciocínio científico, além de uma seção optativa de escrita. É preciso pesquisar qual prova é exigida por sua faculdade favorita.

Existe ainda o SAT Subject Test (ou SAT II), que serve para avaliar o seu conhecimento em uma área específica. É possível fazer o SAT II em 20 áreas diferentes. As universidades mais concorridas podem pedir duas ou três provas desse tipo, além do SAT I. As provas são realizadas em escolas aqui no Brasil, entre cinco e seis vezes por ano, diz Annie. “As datas são mundiais, todos fazem no mesmo dia”. É importante dizer que tirar uma nota alta no SAT não é garantia de vaga. “Tirar uma nota perfeita no SAT não é garantia de entrar em uma faculdade nos EUA”, diz a especialista. “Eles querem ver que você é mais do que uma nota.”

A inscrição do SAT I custa US$ 57, além de uma taxa de US$ 35 para estudantes internacionais (caso de brasileiros). Para o SAT II são US$ 26 pela inscrição (até três matérias), além de US$ 20 por matéria e mais uma taxa de US$ 35 para estudantes internacionais. O custo do ACT, incluindo a parte escrita optativa, sai por US$ 58,50, mais a taxa de US$ 51 para candidatos internacionais.

Exame de proficiência em inglês
O exame mais comum é o TOEFL, mas há também o IELTS. Ambos avaliam compreensão auditiva, leitura, escrita e fala da língua inglesa. No caso de universidades norte-americanas, o TOEFL é o mais recomendado. A nota máxima desse exame é 120, portanto quanto mais próximo disso, melhor. “Muitos programas de universidades exigem notas a partir de 100”, diz Bruno Contrera, do STB. A inscrição para fazer a prova custa US$ 215. Confira aqui dicas de Época NEGÓCIOS para se sair bem.

Cartas de recomendação
Em geral, são três cartas de recomendação necessárias: uma do coordenador da sua escola e duas de dois professores (com quem você tenha tido aula no último ou no penúltimo ano). As cartas devem ser redigidas em inglês e encaminhadas pelo próprio autor. O Common App dará a opção de “convidar” por e-mail a pessoa que irá escrever a recomendação. “A carta fornece uma visão de quem é o aluno, como lida com as matérias, os colegas e os professores”, diz Marta Bidoli, do EducationUSA. Nessas cartas, ela diz, é interessante ter exemplos das atividades de que o aluno participou para “realmente mostrar quem era esse aluno dentro da sala de aula”. “No caso da carta do coordenador, quem era esse aluno no contexto da escola”, conclui.

Redação
É a chance de mostrar quem é você. “Costuma ser o maior desafio para os estudantes”, diz Bruno Contrera. Algumas universidades chegam a pedir mais de uma redação. O ideal é mostrar no texto um lado que a documentação do application não traz. “É a parte mais subjetiva do application, pois permite que você conte a sua história com a sua própria voz. O melhor é sempre mostrar na redação o que não aparece no currículo escolar. Mesmo na hora de falar de alguma atividade, é preciso pensar em como trazer coisas novas”, diz Carolina Lyrio, da Fundação Estudar. Ela relembra que há faculdades “mais sérias, outras são mais informais”, um ponto para o qual o candidato deve prestar atenção ao estruturar sua redação. “Pelo que os alunos escrevem nas redações e a forma como fazem isso, a faculdade também consegue entender um pouco o perfil daquele aluno”, explica.

Para se destacar, tente fugir de clichês. “O que eu vejo muito: “fui para um lugar pobre e fiz um único trabalho voluntário, agora entendo a pobreza e isso mudou minha vida”. Isso é muito superficial”, afirma Annie Kim Podlubny, do DUX Institute. “Tem alunos que viajam para fora do Brasil para ter essa experiência. Mas é uma experiência só, então não é convincente. Agora, se foi um processo contínuo, durante dois ou três anos, pode ser diferente.”

Annie diz que, nesses casos, o ideal é o candidato falar sobre algo que influenciou sua vida. “É melhor falar de alguma coisa mais simples, mas que teve impacto no seu dia a dia. Você tem que escrever sobre você, quem é você.”

O texto (chamado de “essay”), assim como todo o material, deve estar em inglês.

Entrevista
Não são todas as universidades que realizam entrevistas com os candidatos internacionais. As mais disputadas podem querer um contato. Não existe uma regra: alguns estudantes são convidados para fazer a entrevista, outros não. As conversas podem ser conduzidas por telefone, online ou presencialmente, por ex-alunos que sejam brasileiros ou representantes da instituição. Normalmente, as entrevistas acontecem entre janeiro e fevereiro.

Estratégia

O estudante pode “aplicar” para quantas universidades quiser. A diferença? O custo. E a quantidade de trabalho. “O que precisa ser levado em consideração: cada faculdade adicional pode representar textos adicionais”, diz Carolina Lyrio. Só a taxa cobrada pela universidade para inscrição varia entre US$ 35 e US$ 80. Mas é possível conseguir isenção na candidatura, caso você não tenha como pagar. No próprio Common App, o candidato pode indicar que gostaria de pedir isenção — caso de um estudante de baixa renda, por exemplo — e dar a justificativa. Quando o estudante faz esse pedido, automaticamente o coordenador da escola no Brasil tem de confirmar se aquele motivo é verdadeiro. “Dos alunos de baixa renda com que trabalhamos, a grande maioria consegue a isenção”, diz Marta Bidoli.

O recomendado, além de pesquisar o perfil das instituições que mais combinam com você, é dividir as candidaturas por “chance de passar”. “O aluno precisa montar uma estratégia”, diz Marta. Exemplo: inscrever-se em três universidades dos seus sonhos (mas que são muito difíceis — como as que fazem parte da Ivy League), três em que há mais chances de você passar e três em que é praticamente certeza que vai conseguir. Essa, aliás, é a estratégia adotada pela maioria dos alunos que “aplicam” para estudar fora.

Existe ainda outro tipo de candidatura, feita mais cedo. Trata-se da chamada “early action”. São os applications que costumam abrir em outubro, com resultados no começo de dezembro. Em geral, nesta fase, você se candidata para uma só universidade. E aqui, se quiser, pode usar um recurso chamado “early decision” (ou decisão antecipada). É um jeito de mostrar que aquela é a sua primeira opção — a favorita. Funciona assim: na candidatura, você se compromete a ir para aquela universidade caso nela seja aprovado.

Prazos

As aulas começam entre agosto e setembro nos Estados Unidos, não no começo do ano, como tradicionalmente acontece no Brasil. As candidaturas regulares para as universidades se dão entre os meses de dezembro (do ano anterior ao que você vai iniciar os estudos) e janeiro (do ano em que você começa a estudar). Em geral, os estudantes ficam sabendo da aprovação (ou não) em março. A partir de então, os aprovados terão um prazo estabelecido pela universidade para fazer a matrícula. Depois dessa data, as vagas remanescentes são oferecidas a alunos que entraram em uma lista de espera. Algumas faculdades oferecem prazos de candidatura mais flexíveis, segundo Marta Bidoli. “Chegam até junho daquele ano [em que o aluno começar as aulas]”. Mas vale lembrar que não é o caso das instituições mais tradicionais.

Bolsas de estudo

Há dois principais tipos de bolsa oferecidos pelas universidades americanas: por mérito e por necessidade. Algumas oferecem os dois tipos. Na sua pesquisa de perfil das universidades, isso é algo que terá de levar em consideração, para escolher a que se encaixa no que você precisa. Cada uma terá um método de se candidatar para as bolsas. “Dependendo da faculdade americana, pode ser que eles tenham mais ou menos bolsas para os estudantes internacionais”, diz Carolina Lyrio. Existe ainda a opção de conseguir bolsas por meio de uma entidade externa aqui no Brasil.

Segunda graduação

Outra diferença das instituições de fora: fazer uma segunda graduação não é tão comum lá quanto aqui. Ou seja, caso você já tenha cursado a faculdade, programas menores (de três meses a dois anos) podem ser mais recomendados do que quatro anos de uma nova graduação. Ainda assim, não significa que você não possa tentar. “O que as pessoas acabam fazendo é uma extensão universitária”, diz Bruno Contrera, do STB Intercâmbio. Segundo ele, as grandes universidades oferecem tal alternativa.

“A maioria das faculdades prefere alunos que estejam saindo da faculdade, ou que se formaram há um ano (o gap year). Procuram alunos que estejam em um momento de vida parecido”, diz Carolina Lyrio. Ela sugere uma “pesquisa um pouco mais detalhada” para quem pretende alongar sua educação e não se encaixa na mesma faixa etária.

Fonte: Época Negócios

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